Dia sucinto, comum, passaria até despercebido se sua mãe não
tivesse dado a ela luz para o mundo - ou se o mundo não tivesse recebido mais
luz nesse mesmo momento - há alguns anos. Mas enfim, era seu aniversário.
Ela acordou, mas não
de uma vez, aos poucos, sentiu-se por alguns minutos naquela fase
pré-consciente pós-sono, misturou parte do que havia sonhado com o ambiente em
que estava. Tornou-se ciente de seu corpo, sentiu: boca amarga, olhos
sensíveis, corpo ainda adormecido... Era seu aniversário. Acordou, movida por
um hábito incessante e rotineiro, espreguiçou-se, jogou a coberta para a beira
da cama, e caminhou descalça pelo corredor em direção ao banheiro, coçou os
olhos no caminho, e ajeitou o pijama, na porta do banheiro. Ao coçar os olhos,
um tanto quanto desatordoada, colocou os pensamentos no lugar, lembrou-se do
dia anterior e situou-se no dia atual: expressou o mínimo de ânimo com uma leve
movida de canto de boca, que logo se desfez em certo mau-humor matinal. Olhou-se
no espelho por um tempo, e conclui que pouco não havia mudado em relação ao ano
passado, ela aparentava estar mais velha assim como Avril Lavigne, beirando o rejuvelhecimento.
Refletiu, e desceu para o café da manhã, enquanto algo lhe soava a mente bem
abstrato.
Desceu as escadas, passando por grande parte dos cômodos da
casa, em cada cômodo era felicitada por um de seus familiares, eram tão comuns
- as felicitações -, quantos as que recebiam nas redes sociais, agradecia e
dissimulava com toda a educação e moral que lhe fora passada, emocionava aos
felicitadores. Mas esperava algo mais,
algo inusitado, tão abstrato quanto o que lhe havia soado a mente há pouco.
Dissimulações a parte, continuou seu dia, nada muito
diferente da rotina, vagou na internet, escreveu no seu blog, atualizou seus
perfis nas redes sociais, teve ideias loucas, conservadoras, revolucionarias, mas
nada que tenha ido além de tweets ou post no face. A sensação bluo continuou, era
certo desamparo, uma vaga expectativa que ela gostaria que fosse preenchida com
acontecimentos. Tomou forma. Tinha letras e sílabas, verbos e substantivos,
sujeito e predicado: era uma frase! Uma frase que ela tinha lido em uma
conversa com um amigo fazia alguns dias, a frase: “os verdadeiros inventam o tele transporte...”, um tanto quanto
pretenciosa e hipócrita, já que ele mesmo não o tinha inventado.
Páginas e atualizações depois, ela percebeu que a hora já
era avançada, e o que o dia havia passado, não rápido nem devagar, mas como
tudo naquele dia, de forma costumeira, segundo seguido de segundo, minuto
seguido de minuto, hora seguida de hora. Ela se decepcionava com seu amigo a
cada segundo, minuto ou hora que passava, pois o tele transporte era o que ela
ansiava durante o dia todo, tinha até feito planos e arquitetado viagens para
os lugares mais inusitados através
dele, e ele nem ao
menos tinha uma explicação e muito menos um ‘parabéns facebookiano’, que era o
mínimo que todos os amigos, conhecidos ou educados haviam feito. O fim do dia
chegava, ela ansiava mais a cada atualização de página, não que o tal amigo
fosse realmente importante, mas ela estava com uma ideia fixa, que a perturbava
tanto quanto seu irmão em dias de hiperatividade.
Sua paciência acabou antes do seu dia, as atualizações das
redes sociais já não a distraiam mais, e a decepção havia se misturado com
qualquer outro sentimento parecido com a raiva, talvez um pouco mais sutil. Ela
se desconectou de tudo, e rumou para cama, seu dia acabou pouco antes do dia realmente
se encerar na sua cidade.
Mas seu amigo não era tão indiferente assim, como ela
pensou. Enquanto ela se desconectava, exatamente no mesmo horário – pouco antes
do fim do dia -, ele havia inventado/descoberto em teoria, o que ela ansiava
por todo dia. Ao teoricamente conseguir, ele soltou um grito tão espontâneo e
perspicaz quanto o de Arquimedes ao descobrir seu principio, ficou feliz e
eufórico, entrou desesperadamente em todas as redes sociais que ambos frequentavam
para comunica-la da descoberta, mas ela já não estava online, triste acaso. Ele
então pensou um pouco mais, mas não sobre o tele transporte, mas sim sobre o
sigilo dele, decidiu não contar a ninguém, nem mesmo a amiga cujo invento fora
dedicado, ele achou que o efeito de surpresa seria ainda melhor noutro ano.
Ela chateou-se, desiludiu-se e decidiu-se, amizade que era
incerta, para ela agora não passava apenas de mais uma amizade qualquer, e foi
assim que ela começou a trata-lo, com a mesma dissimulação e educação com que
receberá as felicitações comuns. Ele sentiu o enfado do desprezo, mas achou
justo e compreendeu, trabalhou durante todo o novo ciclo que se formou até o
próximo aniversário dela, e no ano seguinte, do último espaço que lhe encantava
para uma nova jornada, ele foi, e o que era vago no mesmo dia a um ano atrás era
tão vivo palpável neste que se sucedeu, ela recebeu a felicitação e a certeza
de que a amizade que ela tinha era tão verdadeira quanto o meio que a trouxe
até ela, então concluiu concordando: “os verdadeiros
inventam o tele transporte...”
(Ao meu mesmo tempo que me toca toda vez que eu leio, me assusta em saber que distante de mim, isso você não tá mesmo. Obrigada por esse presente lindo)